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Mulheres afetadas pelo Zika se mobilizam em busca de apoio

Publicado 10/11/2016

Se por um lado as mulheres figuram como as principais vítimas do vírus Zika no país, por outro elas emergem como líderes e empreendedoras de iniciativas de apoio. Seja na internet ou em associações, as mães de bebês com microcefalia vêm se unindo em redes de solidariedade para se proteger, informar e amenizar as consequências da epidemia. Nesta sexta-feira (11) completa um ano desde que o Ministério da Saúde decretou a epidemia do vírus Zika como Situação de Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional.

A mobilização começou por aquelas que foram afetadas diretamente pelo vírus: as mães. Juntas nos corredores de hospitais, elas compartilham suas vivências e se unem pela garantia de direitos. No Hospital Municipal Dom Pedro I, em Campina Grande (PB), salas antes ocupadas para fins médicos, agora estão cheias de doações de fraldas, latas de leite, roupas e calçados infantis. “O que a gente tem feito aqui desde o começo foi encampar essa dor e essa angústia dessas mãe. Então, independente da especialidade, todo mundo é meio que assistente social e psicólogo”, conta Adriana Melo, especialista medicina fetal.

A roda de psicologia é um dos momentos mais aguardados pelas mães que frequentam a unidade. Depois das sessões de fisioterapia dos filhos, elas tomam café da manhã e conversam sobre seus anseios. O momento de troca de experiências é seguido da sessão de terapia, em que elas são conduzidas por uma psicóloga a pensar nas mudanças de suas vidas.“Todo aprendizado humano ocorre num processo coletivo. Seja troca de conhecimento, seja de afeto. O grupo tem um potencial enorme de transformação. A gente aposta nessa técnica para que elas possam realmente perceber que não estão sozinhas nessa luta, que estão junto com outras mulheres que estão vivendo algo parecido.”, explica a psicóloga Jaqueline Ramos Marinho.

Um dos focos do trabalho é ressignificar a maternidade para essas mulheres, que em grande parte descobriu a microcefalia no pós-parto. “Elas precisaram fazer toda uma desconstrução de uma maternidade idealizada para substituir por uma maternidade real. É um trabalho árduo. A gente percebe que elas conseguiram dar outro sentido à maternidade, transformando uma situação que é tão difícil, em algo positivo. Não mais olhar o filho como uma criança que possui uma deficiência, mas como uma criança que tem também potencial de transformação”, comenta a psicóloga. 

Transformar a dificuldade em algo produtivo foi o que fez Jéssica de Jesus, mãe de Ícaro, um dos bebês com microcefalia de Salvador (BA) atendido no Centro de Reabilitação da Irmã Dulce. Antes de ser mãe, ela já desenvolvia um trabalho social realizado junto ao bloco de carnaval “Comanches do Pelô”, com foco em ajudar crianças com algum tipo de deficiência. Jéssica e o marido perderam o emprego, mas ficou a experiência de mobilização. A partir da própria vivência das mães ao seu redor, começou a mobilizar os blocos de carnaval de Salvador para arrecadar fraldas e leite nos shows. “O nosso foco principal são as mães que fazem tratamento de fisioterapia com seus filhos aqui. Então, é muito importante que o pouco que a gente tenha, a gente possa doar”, diz.

A iniciativa foi reconhecida pela direção do hospital e por vários empresários da cidade. Jéssica ainda tem apoiado as mães para que elas procurem, junto à prefeitura ou mesmo no SUS, o atendimeno adequado. “O sonho que eu tenho agora é de ver a felicidade das mães, independente da situação que está acontecendo”, revela Jéssica.

Apoio nas redes sociais e na vida real

Em Recife, estado mais afetado pela epidemia, as mulheres foram acolhidas pela Associação de Mães e Famílias Raras, a Amar.  A presidente da associação, Pollyanna Dias, conta que tudo começou nas redes sociais, onde as mães desabafam e buscam ajuda. “A Amar surgiu de uma necessidade de cuidar da mãe. Essa mãe vinha na minha fanpage no Facebook buscando ajuda, dizer que era muito sozinha, que não estava suportando mais aquela pressão e a solidão. Diante disso surgiu o grupo para a gente poder fortalecer essa mulher”, lembra.

A associação foi procurada por um número muito grande de mães que não têm condição financeira para cuidar das crianças com microcefalia. Por isso, promove eventos de arrecadação de donativos para garantir alimentação, fraldas e transporte, entre outras necessidades. “Uma coisa que diferencia a zika das outras síndromes raras é que, nas outras síndromes, as mães são de todas as classes sociais. Na Síndrome Congênita do Zika, a maioria é de extrema pobreza. Então, a dificuldade inicial foi socorrê-las com essa parte financeira”, explica Pollyanna.

Do trabalho da Amar, surgiu a União de Mães de Anjos, conhecida como UMA, que já conta com mais de 300 cadastradas. Por meio de eventos públicos e nas redes sociais, o grupo promove ações de combate ao preconceito, arrecada doações e presta assistência às mães e bebês atingidos pela síndrome, como Elaine Michelle, 29 anos. “Foi com a UMA que eu consegui enxergar o meu filho, foi onde eu vi que não estava só, que tinhamos outras mães na mesma situação. Eu vi que não é o fim, que eles vão se desenvolver e crescer. A gente luta para isso”, declara Elaine.

Ela tornou-se uma das secretárias da UMA e explica que uma das principais lutas do grupo é o combate ao preconceito e a busca por uma sede própria. Hoje, as mães coordenadoras se reúnem semanalmente em um espaço improvisado, na sede de uma ONG cristã situada na periferia do Recife.

Apoio comunitário e empoderamento

Muitas integrantes da UMA são religiosas e encontram na fé o consolo e a motivação para prosseguir. As religiões de matriz africana também têm sido fonte de apoio. Na periferia do Recife, a ONG Uiala Mukaji acolhe a demanda de mulheres afetadas pela epidemia.  A organização prepara um projeto para levar informação sobre os

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