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Amor e Revolução

Autor Tiago Santiago:

Autor Tiago Santiago: "Sei o que é viver sob a ditadura" - 05/Apr

Pela primeira vez na televisão do Brasil, uma telenovela vai mostrar a realidade da ditadura militar que assolou o país. Quem tem a missão de contar esta história é o autor Tiago Santiago, que em entrevista, fala tudo sobre o desafio de fazer sua nova trama.

O período da ditadura militar no Brasil vai dos anos de 1964 a 1985. Por que decidiu fazer uma leitura dos anos de 1964 a 1971, especificamente?
Tiago Santiago - Vou começar a contar a história em 1964, mas não tenho certeza ainda em que ano vou terminar (risos). A intenção é narrar a história de personagens diretamente ligados ao tema da ditadura, a favor ou contra, como militares, guerrilheiros, torturadores, artistas, jornalistas, advogados e estudantes nos anos mais brutais da repressão. É possível que avancemos até a guerrilha do Araguaia, no começo da década de 70.
 
Quais os maiores desafios que enfrenta para escrever uma novela de época com um assunto tão profundo, abordando questões políticas, sociais e ideológicas?
Tiago Santiago - É uma responsabilidade muito grande, porque muita gente sofreu, foi torturada, desapareceu, e sobreviventes e familiares de desaparecidos querem ver a história bem contada. As antigas gerações, que de uma forma ou de outra, acompanharam o que aconteceu também vão ter um olhar atento para o que estamos fazendo.

Por que a ditadura?
Tiago Santiago - Por várias razões... É um período muito importante da História do Brasil, muito rico em conflito, que é a mola mestra da dramaturgia. E é um tema que havia sido muito pouco abordado em novelas. Na verdade, esta é a primeira vez que uma novela usa a ditadura como tema principal, com foco na trama central. E é uma oportunidade de ver como pessoas foram capazes de doar ou arriscar as próprias vidas para lutar por justiça social, confrontando um poder armado muito maior e mais poderoso, e também de observar como seres humanos podem se corromper ao ponto do sadismo e da barbárie, no caso dos torturadores.
 
Como foi o processo de pesquisa para escrever a novela?
Tiago Santiago - Sou bacharel em Ciências Sociais e tenho Mestrado em Sociologia, pelo Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, e este background acadêmico foi de grande valia. Desde a aprovação do tema pelo SBT, tenho lido literalmente dezenas de livros sobre o tema, além de entrevistar e buscar depoimentos de pessoas que viveram os acontecimentos.
 
Você buscou impressões, opiniões, orientações e sugestões com quem viveu naquela época?
Tiago Santiago - Sim. Temos sistematicamente colhido depoimentos de ex-guerrilheiros, políticos da época, familiares de mortos e desaparecidos, artistas e advogados de prisioneiros políticos. Esses depoimentos serão mostrados em edição condensada dos trechos mais emocionantes após a exibição de cada capítulo.
 
Você passou quanto tempo se preparando para de fato escrever o primeiro capítulo?
Tiago Santiago - Toda minha vida de brasileiro de 47 anos interessado no assunto e alguns meses de pesquisa dirigida especificamente para isso.

Para construir os personagens você se inspirou em personalidades que viveram aquele período? Se sim, quem e por quê?
Tiago Santiago - Os personagens da novela são ficcionais, porém simbólicos. Os personagens da vida real, dos acontecimentos da História do Brasil - como João Goulart - são citados, porém não tenho a intenção de retratar cenas das vidas destas pessoas simulando a realidade, porque em uma novela de 180 capítulos, no mínimo, é preciso inventar muito, e não poderia fazê-lo se fosse apenas reconstituir fatos vividos por pessoas da vida real.

Você encontrou apoio e resistências? Acredita que tem uma plena abertura para abordar o tema?
Tiago Santiago - Sim. Tenho tido liberdade total para contar esta história, sem sofrer quaisquer pressões, além do desejo de todos que viveram os fatos de ver a história bem contada. E isto é um dever meu, como profissional e como ser humano interessado em fazer jus aos mártires que deram suas vidas na luta contra a ditadura.

Como acha que os telespectadores vão receber Amor e Revolução?
Tiago Santiago - Tenho sentido imenso interesse, o que me faz pensar que acertamos na mosca quando escolhemos o tema da luta contra a ditadura para esta novela. Não quero cantar vitória antes da hora, mas acredito em um grande sucesso. Aposto que vai ser uma novela marcante, inesquecível, um espetáculo, de profunda observação do melhor e do pior que existe na humanidade, com direito a uma viagem no tempo, um passeio emocionante pela história do nosso povo, em um de seus momentos mais radicais.

Amor e Revolução traz uma grande história de amor. Quais são as agruras que o casal protagonista vive para assumir este amor?
Tiago Santiago - Muitas. Maria Paixão é de uma família de comunistas. José Guerra é militar, trabalha no centro de inteligência do Exército, e é filho de um general da linha-dura. Apesar de José ter convicções democráticas e se colocar a favor da legalidade, contra o golpe, o amor deles é praticamente proibido, impossível, como um Romeu e Julieta na época da ditadura. A partir da metade da novela, depois do AI-5, em 1968, José Guerra deserta do Exército e se junta à luta armada. A partir daí, o casal passa a ser intensamente perseguido pela brutalidade da repressão.

Você viveu a época da ditadura? Quais as lembranças que tem do período? Algo do que viveu te inspirou a colocar na novela?
Tiago Santiago - Sim. Nasci em 1963, um ano antes do golpe. Vivi toda a infância, a adolescência e o começo da juventude sob o tacão da ditadura militar. Sei o que é viver sob a ditadura. Minha família era de classe média, ninguém foi para a luta armada, mas todo mundo odiava a falta de democracia. Em 1977, com 14 anos, cheguei a participar de reuniões da Convergência Socialista, levado por meu irmão Gerardo, que então tinha 17 anos.

No Congresso Nacional é aguardado um debate para a elaboração e criação da Comissão Nacional da Verdade para investigar abusos cometidos durante o regime militar. Qual sua opinião?
Tiago Santiago - Sou a favor da verdade, sempre. Não houve nada planejado. Houve uma coincidência, uma sincronicidade. Porém gosto de pensar que de alguma forma os depoimentos que vamos mostrar podem dar força aos trabalhos da Comissão e a este novo momento importante para a história do nosso povo.

Como você define Amor e Revolução?
Tiago Santiago - Uma grande novela, um épico, uma história de intensos amores e conflitos, vividos na época da ditadura e sempre de alguma forma relacionados a este tema.

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